A Educação em crise no Brasil: uma reflexão filosófica

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A Educação segue em crise no Brasil! O documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) implantado no Ensino Médio (EM) durante a pandemia do covid-19 tem sido rechaçado pelos estudantes, prioritariamente os da escola pública e criticado por uma parte de docentes, educadores e sindicalistas. A mudança de Governo de Frente Ampla Democrata deu ensejo a um debate na Educação, e as categorias envolvidas querem a revogação do Novo Ensino Médio (NEM).

Diante do impacto da pandemia do covid-19, os déficits de aprendizagem, o aumento da fome e a precariedade de famílias, associadas a forte evasão escolar e a insatisfação com o NEM, ascenderam um alerta: qual projeto educacional desenvolver na escola com os jovens em prol de uma educação plena.

Gostaria de trazer para essa discussão a Educação Estética e os parâmetros para sua incorporação no cenário educacional. Cabe lembrar que, no final do século XVIII, o filósofo e escritor alemão, Friedrich Schiller, escreve As Cartas a Augustenburg (1793), nas quais ele propõe a Educação Estética do homem no contra fluxo do Iluminismo, no momento em que a “razão” era considerada a única saída da caverna platônica. Schiller afirmava que “o homem somente é homem pleno quando joga”, referindo-se à dupla seriedade do dever e do destino. O jovem filósofo, escritor e poeta mediante essa proposição faz uma promessa estética onde a vida e a arte se encontrariam (Schiller, 2015).

Parte dos intelectuais há muito tempo concordam que a ‘utopia” acabou! Debates calorosos nos anos 60 e ainda em 1990 parecem vigorar, partindo ou derivando de Hegel, ao questionar o que seria da arte, uma vez que esta haveria se tornado reflexiva e não mais representativa. Por outro lado a estetização da vida, anunciada em A Sociedade do Espetáculo (Debord, 2016) e a reflexão do historicista Peter Burger (2017) de que provavelmente a Modernidade não previu no seu projeto embaralhar vida e arte, nos remete a uma vida estetizada em potência, na qual o perigo da arte e da comunidade estética“não é que tudo se torne prosaico, mas, ao contrário, que tudo se torne artístico” (Rancière, 2011).

Em sua obra Mal-estar na estética (Rancière, 2004), o filósofo franco-argelino defende que o ressentimento antiestético contemporâneo “tem a intenção de liquidar a última forma sob a qual a configuração do mundo sensível carregaria a promessa de uma emancipação, ou seja, o próprio regime estético das artes”.

No seu diálogo com a história das ideias estéticas, Rancière reconhece três regimes: no regime ético, o que está em jogo é a produção de imagens e não de artes, que são julgadas pelo juízo platônico sobre seu destino; o regime representativo- mimético no qual a arte é identificada tal e qual – como maneira de fazer e o que a arte deve copiar como modelo – onde a mimésis não é apenas cópia dos objetos, mas, traz em si a divisão do trabalho. E, como terceiro, o ‘regime estético da arte’ que surge no pré-romantismo e desobriga a arte de toda e qualquer regra específica, no qual os objetos de arte são reconhecidos pelo pertencimento a um sensorium específico (um modo de sentir da arte). É um regime de desierarquização dos saberes e sentires. Esses regimes coexistem e alternam suas dominâncias.

O que se faz relevante no argumento de Rancière no modo estético do pensamento, é uma ideia ligada à “partilha do sensível”, i. é., uma forma de realocar a relação estética com a comunidade. O regime estético proposto traz como possibilidade uma distribuição mais plural dos corpos no espaço sensível, onde é possível conviver com o ‘conflito’ da pluralidade dos saberes e sentires, e das vozes diversas no comum de uma comunidade.

Cabe aqui uma reflexão sobre a BNCC e a reforma do EM que decompôs os saberes por linguagens, sem o aprofundamento pleno necessário, sem oferecer até o momento a possibilidade de comunicação entre as Unidades Curriculares que compõem cada Itinerário Formativo, sem material para os estudantes, e ainda apenas on-line. Essas novas “disciplinas” se utilizam de temas distantes da realidade dos jovens da escola pública, o que aprofunda ainda mais o abismo da desigualdade social no Brasil. Além disso, os alunos são sobrecarregados com dez até doze aulas por semana, com um conteúdo repetitivo, sem os dispositivos tecnológicos funcionando e às vezes indisponíveis, sem a articulação pretensa. Não há uma proposta posta para a interação das “seis dimensões do conhecimento” dos Itinerários Formativos. Sem contar com nenhuma formação previa dos docentes para a interdisciplinaridade. É preciso oferecer formação aos docentes, proporcionar pesquisas remuneradas, para enfrentar os desafios da educação. Parece que, a implantação foi realizada de forma experimental, e toda uma geração está sendo prejudicada por esse sistema.

Já fazendo as considerações finais sobre uma Educação Estética para o novo século, gostaria de trazer o pensamento do Professor Paulo Freire ao afirmar que para “além da redução ao aspecto estritamente pedagógico”, a Educação é marcada pela natureza política de seu pensamento, e adverte o filósofo que é preciso entender “a necessidade de assumirmos uma postura vigilante contra todas as práticas de desumanização”. O ser humano é inconcluso, e vive “sua inserção num permanente movimento de procura, que rediscute a curiosidade ingênua e a crítica, virando epistemológica” (Freire, 1987). Outro princípio fundamental deste pensador que gostaria de destacar, é a formação ética do docente, o que nos leva aos universais e a metafísica – onde ética é bom, por isso, é belo, é “lindeza”, como diz o professor relacionando ética e estética no ato de ensinar e aprender. A sinalização de educar, não é formatar, ou considerar a lógica dominante de mercado ou tratar o jovem como uma matéria prima a ser moldada sob o domínio da vontade de um sobre o outro, nem da lógica dominante que venceu a Revolução Francesa, segundo Schiller, desde o princípio da “diferença das naturezas”, i.e., da lógica do civilizado e do selvagem, mas, “é a “outredade” do “não eu” (Freire, 1987).

Acredito que a Educação trata da representação da História da Humanidade, renovando e alimentando o conhecimento dos logos e da poiesis deste mundo, do qual somos testemunhas.
Sinto que há muito a avançar nessa discussão, caminhos a percorrer, aqui apenas quero contribuir com a constante inquietação que aflige a Educação, na busca de estabelecer um novo tecido sensível nas nações oprimidas e exploradas, e dar corpo à experiência estética, capaz de nos emancipar.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. (BNCC, 2021)
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.
BÜRGER, Peter. Teoria da vanguarda. São Paulo: Ubu, 2017.
FISHER, Max. A máquina do caos. São Paulo: Todavia – Kindle, 2023.
FREIRE, Paulo. A pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1987.
RANCIÈRE, Jacques. Le partage du sensible. Paris: La Fabrique Éditions, 2000.
RANCIÈRE, Jacques. Malaise dans l’ésthetique. Paris: Éditions Galilée, 2004.
RANCIÈRE, Jacques. “As revoluções estéticas e seus resultados”. 2011.
http://www.revolucoes.org.br/v1/sites/default/files/a_revolucao_estetica_jacques_ranciere.pdf
SCHILLER, Friedrich. Cartas sobre a educação estética do homem. São Paulo: Iluminuras, 2015.

Vera Helena Sanchis Alberich
Professora de Filosofia
E.E. Domingos Quirino Ferreira – Zona Sul – São Paulo.
Mestranda na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Respostas de 5

  1. Belo texto Vera Helena, abre um debate inacabado nas escolas e na prática do/a professor/a. Acredito que a arte como experiência estética envolve a ética da libertação e essa proposta também está presente em grandes educadores, entre eles Paulo Freire. Ele critica a educação bancaria preocupada em transferir conteúdos e propõe uma educação dialógica, onde o sujeito cria e se recria no seu fazer. Parabéns pela sua pesquisa e sucesso!
    N: Quem não conseguir deixar comentários aqui no Blog, pode visitar o Facebook!

  2. Parabéns Profa Vera. Belo texto e uma reflexão necessária sobre os impactos que vem causando a implementação desta reforma do Ensino Médio. Uma reforma que além de provocar o aumento da desigualdade social, há o elemento de desumanização das novas gerações, uma vez que a redução do ensino de disciplinas básicas, como Filosofia e Artes por exemplo, produzirão seres sem pensamento crítico e insensíveis.

    1. Neuza, eu concordo… a educação não pode ‘formar’ só pensando no mercado de trabalho, só na educação instrumental . Isso me lembra a poesía Á escola’ de P. Freire “Lugar onde se faz amigos, […]gente que trabalha, que estuda, que se alegra, se conhece, se estima. […] e a escola será cada vez melhor na medida em que cada um se comporte como colega, amigo, irmão.[..] nada de ser como a o tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só. […] numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz.”

      Por uma estética escolar diferente, sensível:
      A Escola – https://pedagogiadavirtualidade.com/2020/10/25/escola-e/

      1. Marvi muito bem lembrado: sempre que ouvia essa música do PinkFloid: we don’t need another brick in the wall, sentia o movimento da resistência do que estamos fazendo na escola e com as escolas. Mais do que tempo de reconfigurar o espaço educativo, não apenas o currículo, mas, a estrutura física, a circulação. Obrigada pelos comentários.

  3. Olá Marvin, boa lembrança. Antes de ser professora, a música do PinkFloyd sempre foi meu hino, we don’t need another brick in the wall. E você lembrou bem!! O tempo naturaliza tantos desvios. Obrigada pelo comentário de vocês. Hoje a sala de aula anda confusa como todos os velhos valores e velhas ficções. A insistência de renovação da Educação apenas no currículo é um grande engano, ela deveria passar por uma revisão da estrutura física das escolas, das carteiras e salas, até a formação e investimento dos professores, e o uso das escolas para recreação das familias com cinema, teatro, apresentações dos estudantes, palestras, debates, açoes de saúde e documentação, isto é, um local de inclusão dos alunos e pais e comunidade. Mas, enquanto isto cresce o número de igrejas em cada esquina. Do crime. Do entretenimento violento. Por isso, apontamos a Educação Estética, no seu amplo espectro é sugerida como uma possibilidade.

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