WEF – Fórum Econômico Mundial
Nesta semana, acompanhamos os debates realizados no âmbito do Fórum Econômico Mundial (56th World Economic Forum, WEF, 2026) em Davos, na Suíça. O encontro teve como tema central A Spirit of Dialogue, abordado sob a perspectiva da gestão de riscos para ‘salvar’ a economia global. Em um contexto marcado por tensões geopolíticas e comerciais, o fórum reuniu chefes de Estado, líderes empresariais globais e dirigentes de organismos internacionais, entre outros atores relevantes.
Os debates trouxeram alertas e apontaram caminhos para a cooperação global, a partir de uma perspectiva econômica capitalista, sobre questões que tendem a orientar as agendas públicas e privadas nos próximos anos.
As temáticas do fórum abrangeram meio ambiente, inteligência artificial, segurança energética, transição climática, crescimento, inovação e prosperidade. Assistimos às falas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que, ao estabelecerem contrapontos em temas como geopolítica, tarifas e governabilidade, este último afirmou que a ordem mundial liderada pelos EUA está se quebrando.
Nesse cenário de uma sociedade cada vez mais fragmentada, também acompanhamos a entrevista com Elon Musk (Tesla, SpaceX, xAI) e o debate “O crime cibernético tem vítimas reais” (#wef26), entre muitos outros conteúdos de debates acessados por meio do YouTube.
Confirmamos o que já dizíamos: hoje temos a responsabilidade de buscar compreender o mundo — o que já é meio caminho andado — para então pensar em alguma mudança ou transformação em prol da justiça social, da paz e da cidadania. Ainda assim, ficou a impressão de que certos líderes chegaram trazendo o futuro em suas mãos, como se a nós restasse apenas vivê-lo.
Nesse momento, reafirmamos a importância da educação como um ato de consciência e de cidadania. E, no sentido do livro Satantango (…), “resta a esperança trágica, ou seja, a lucidez diante do vazio, a capacidade de ver o mundo sem véus, de compreender o absurdo e, talvez, resistir pela consciência”.
O debate O crime cibernético tem vítimas reais (#wef26), que reuniu lideranças da área, mostrou como o Sudeste Asiático se tornou um epicentro de uma crise que mistura tráfico humano e golpes virtuais em escala industrial, automatizada. A conversa revelou a face mais dura da fraude moderna — não apenas como um crime financeiro, mas como uma operação coercitiva que explora e escraviza trabalhadores para enganar pessoas em todo o mundo.
Ao conversar com a IA sobre o tema -incluindo o narcotráfico e o debate em Davos 2026- reforçamos a ideia de que, para interromper centros de fraude e proteger trabalhadores explorados, é preciso a atuação conjunta de especialistas, organizações internacionais e sociedade civil organizada. No debate, três frentes principais se destacaram:
1) Desarticulação de redes criminosas e resgate de trabalhadores
Para enfrentar esse cenário, é fundamental:
Cooperação geopolítica e policial: depende de operações conjuntas entre países como China, Tailândia e Mianmar, com o objetivo de desmantelar centros de golpes e repatriar milhares de vítimas de tráfico humano forçadas a trabalhar nessas ‘fábricas’ de fraude.
Atuação da Interpol: a organização classifica essas operações no Sudeste Asiático como uma crise global, que exige coordenação internacional. O desafio é tratar esses centros não apenas como crimes financeiros, mas como graves violações de direitos humanos.
Apoio às vítimas: governos precisam criar protocolos claros para identificar e acolher cidadãos enganados por falsas promessas de emprego tecnológico, que acabam sendo coagidos à prática criminosa.
2) Aumento da resiliência na economia digital
Uso defensivo da inteligência artificial: em 2026, a IA se consolida como uma força central da segurança cibernética. Empresas ampliam investimentos para detectar comportamentos suspeitos e automatizar respostas a ataques que usam IA generativa para clonar vozes e estilos de escrita.
Regulação e criptografia: a tendência é marcar uma aceleração na regulação tecnológica e na adoção de criptografia pós-quântica, protegendo infraestruturas digitais e dados sensíveis contra ameaças futuras.
Segurança nos pagamentos: diante da sofisticação dos golpes, instituições financeiras reforçam os sistemas de pagamento instantâneo, como o Pix no Brasil, e incentivam os usuários a denunciar e seguir checklists mais rigorosos de segurança.
3) Fortalecimento do fator humano
Educação e conscientização: a conscientização de usuários e empresas continua sendo a linha de defesa mais importante. Programas de treinamento contra phishing e fraudes de “CEO” (Business Email Compromise, BEC) são essenciais para reduzir o impacto de ataques cada vez mais personalizados, já predominantes em 2026.
Estudo das táticas de persuasão: iniciativas colaborativas analisam as estratégias psicológicas usadas por criminosos, contribuindo para a construção de uma integridade digital mais robusta.
A fraude cibernética, voltada ao engano para roubo de dinheiro ou dados, superou o ransomware, que se concentra no sequestro de sistemas para exigir resgate, e tornou-se a principal preocupação de líderes globais. Esse cenário reforça a necessidade de as organizações incluírem riscos geopolíticos em suas estratégias de mitigação.
Educação para a consciência ética e crítica
Diante do cenário mundial marcado por diferentes formas de violência, a educação para a cidadania torna-se cada vez mais importante. Desde a infância, é preciso retomar e atualizar as orientações do Fórum Social Mundial (FSM), que defende a construção de “um outro mundo possível”. Isso implica ir além de respostas empresariais e enfrentar o sistema de forma mais profunda, compreendendo que o desafio não está apenas na tecnologia, mas principalmente na formação de uma consciência ética e crítica.
Em 2026, o enfrentamento dos chamados ‘negócios perversos’, como fraudes e o tráfico humano, exige que crianças, jovens e adultos aprendam a ler as intenções por trás das telas e reconheçam e/o recuperem o valor da dignidade humana na economia digital.
Para interromper esse ciclo de exploração e destruição de sonhos -inclusive em diálogo com a IA, a educação precisa se apoiar em quatro pilares fundamentais. O primeiro deles é:
1) Alfabetização midiática e pensamento crítico, além da interface
Desde cedo, as crianças podem aprender que a internet não é um espaço abstrato, mas um ambiente sociocultural, geográfico e econômico, com interesses e impactos reais na vida das pessoas.
É fundamental questionar o sentido da educação: educar para quê, com quem e em favor de quem? Ao se depararem com promessas de ganhos fáceis ou sucesso instantâneo -comuns em jogos e redes sociais-, devem ser estimuladas a perguntar: quem se beneficia disso? De onde vêm esse trabalho, a energia, os recursos utilizados e o dinheiro?
Também é importante desconstruir o algoritmo, mostrando que as plataformas são projetadas para manter o engajamento e que essa lógica pode ser explorada por organizações criminosas para atrair pessoas a esquemas de fraude ou recrutamento.
2) Ética digital e empatia global
A educação cidadã deve reconectar o clique e o like à humanidade, evitando que as pessoas sejam reduzidas a meros consumidores dos produtos das grandes Big Techs.
A vítima do outro lado: investir em programas educativos que mostrem que o crime cibernético costuma ter mais de uma vítima: quem perde tempo, energia e o dinheiro conquistado com esforço e quem é coagido ou escravizado para executar o golpe. Ao humanizar um ‘perfil fake’, ensina-se crianças, jovens, adultos, idosos — e até chatbots — a não serem indiferentes à exploração de terceiros.
3) Compreender a economia da atenção e dos dados
Para deixar de serem exploradas, pessoas e instituições precisam entender que seus dados e sua atenção são a verdadeira ‘energia’ que move o mercado digital.
Soberania digital: promover a consciência sobre a importância de proteger a própria identidade digital e os recursos naturais de cada pais como um exercício de cidadania. Isso reduz o risco de que indivíduos se tornem ‘mulas’ de dados ou facilitem, por ingenuidade, a entrada de redes criminosas em seus círculos sociais.
Investigação das ‘cadeias de valor’: projetos educativos podem analisar como grandes corporações e mercados se beneficiam da falta de regulação, formando futuros consumidores e profissionais — mas não cidadãos críticos que exigem transparência e responsabilidade das empresas.
O valor do trabalho real: combater a ideia de que o mundo digital é uma ‘zona livre’ de leis, reforçando que os direitos humanos valem tanto no ambiente físico quanto no virtual.
4) Fortalecimento da saúde mental e do sonho das pessoas
Centros de fraude, como os existentes no Sudeste Asiático, exploram justamente a vulnerabilidade emocional e o desespero por uma vida melhor.
Resiliência contra o estelionato sentimental: educar emocionalmente desde a infância para que pessoas não busquem validação ou fuga em interações com desconhecidos que utilizam táticas de engenharia social, comuns no início de ciclos de tráfico humano.
Propósito da educação além do consumo: ensinar prosperidade, entender que sucesso não se mede apenas pelo enriquecimento rápido, reduz-se o poder de atração das redes de fraude que usam a ideia de melhor vida, ostentação e luxo ilusório como isca para explorar e escravizar trabalhadores.
Ação prática para o futuro da educação: Instituições como a SaferNet Brasil e os guias de cidadania digital de organizações democráticas oferecem caminhos e recursos para que escolas, famílias e empresas ampliem esse diálogo. Em 2026, segurança cibernética vai muito além de um bom antivírus, ela passa pela formação de cidadãos capazes de reconhecer riscos e identificar tentativas de exploração, mesmo quando elas se escondem por trás de interfaces bonitas- e nem sempre confiáveis.