Sou Odisseu, rei de Ítaca

Odisseu – Conto de Daniel Krasucki.

Daniel


Sou Odisseu, rei de Ítaca. Em grego. Ou Ulisses na raiz latina, cultura romana. Como é sabido sou o protagonista principal da Odisséia. Uma aventura com muitas peripécias imortalizada pela escrita de Homero.

A Deusa atenta dos pés alados e Atena foram sempre minhas protetoras tanto no Olimpo, morada dos Deuses, como na terra, o lugar dos homens. Sempre precisei ter duas mulheres por razões que só Freud explicará muitos anos depois – as Deusas lêem também o futuro.

Quando a Odisséia terminou, voltei aos braços de Penélope, minha amada, assediada por muitos pretendentes ricos e poderosos. Nada nos diz Homero sobre se Penélope gostava ou não de ter esses pretendentes.

Fui chamado ao Olimpo. Depois de se divertir muito com minhas aventuras, os Deuses haviam finalmente se entediado – os Deuses mudam de opinião com facilidade.

Alguns deles queriam que eu partisse para uma nova guerra. Outros, que me entregasse às tropas inimigas. Atena intercedeu. Ficaria quieto em Ítaca sem fazer alarde – ofereceria apenas uma hecatombe (o sacrifício simultâneo de cem bois). Passaria a ser um semi Deus aos cuidados de Atena – a filha de Zeus. Seria, portanto, imortal.

Por isso escrevo desde um futuro próximo, estamos – ou seja, estou – no ano de 2047. Já faz muito tempo que os carros não têm motoristas e que os homens se comunicam através do pensamento. Os drones transportam as pessoas pelo ar e os transplantes de cérebro são uma realidade cotidiana. Minhas aventuras no passado são conhecidas. Na mais célebre delas resisti o canto das sereias encantadas fazendo com que meus homens me amarrassem no mastro principal do barco. Os tripulantes tamparam seus ouvidos com cera. Mandei parar o barco, não fui obedecido. Assim fomos salvos do naufrágio a que as sereias conduzem os que dão a elas ouvidos.

A Odisséia – minhas aventuras – eram cantadas em verso e repetidas contadas pelos aedos uma e mil vezes até que Homero fez um livro com elas. Isto foi no 800 ou 900 a.C. Não há acordo: alguns dizem que com a escrita de Homero surge a Literatura; outros opinam que a escrita foi um perverso invento que cristalizou a narrativa e tirou do Homem a capacidade de reinventar a História.

À inovação da escrita seguiram-se outras, até chegar aos chips que todos levamos atrás das orelhas. Desde 2017 aproximadamente o mundo vive uma onda de crise econômica e nacionalismos agressivos.

A pobreza aumentou. Embora vivamos até os 110 anos, cresceu a distância entre os muito pobres e os muito ricos. Por isso quero me dirigir a todas as crianças para pedir que leiam a Odisséia, o episodio das sereias, e que se amarrem como eu para não participar da guerra mundial que é hoje uma ameaça. Todos juntos podemos fazer com que a escrita nos traga a felicidade de ler, que o computador nos traga tempo livre para brincar. Conquistemos a possibilidade de escutar melhor os outros e de viver sem necessidade de matar nenhum ser vivo.

Ulisses, rei de Ítaca.

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