Margarita Victoria Gomez
Num povoado da zona rural de um pequeno Município do sul de Minas Gerais, torna-se contemporânea à comunidade o ritual de busca do Rei que libertará o povo das suas faltas e da opressão de Herodes, rei da Judeia e, o uso de modernas tecnologias que documentam digitalmente essa realidade para postar no espaço virtual da internet.
“Todos os anos, de 25 de dezembro a 3 de janeiro, um grupo e cantadores e instrumentistas percorrem sítios, fazendas e casas entoando versos relativos à visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. São guiados pela bandeira de santos Reis, imagem sagrada através da qual abençoam os devotos, suas moradias, negócios e animais e, sempre , cantando no ritmo de ladainhas, pedem ofertas convidando a todos para a Festa de reis. A este ritual dão o nome de giro.” (Queiroz, 2012, p.15)
O giro ocorre no dia 25 de dezembro e, na realidade vai até 6 de janeiro, quando se realiza a festa na casa da família devota que ocasionalmente está pagando uma promessa. Acolhe-se a gente do povoado, das cercanias, os moradores de outros povoados, as pessoas que por ai passam e que chegam ao ritual.
A festa começa a ser pensada espiritualmente um ano antes e é nesses dias anteriores ao da festa que as mulheres se congregam na casa da devota para oficiar de cozinheiras e de ajudantes na preparação das comidas tradicionais, das bebidas e para enfeitar e preparar o local para a chegada dos festeiros.
A Companhia , formada pelos mestres, contramestres, cantadores, instrumentistas, alferes e tocadores, guiam a Folia. A companhia sai da casa de um dos moradores e até chegar na casa da devota passa por três portais seguindo o relato bíblico do nascimento (Mt 1:2). Em cada um deles entoam as orações, cantam e os mascarados dançam cumprindo a função de distrair os soldados do Rei…. A companhia e os festeiros pedem passagem … no segundo portal a devota, dona da casa, abre a cortina deste para que eles passem.
A Companhia guia com seu canto, os mascarados se ajoelham e depois entram de costas expressando o máximo respeito…. o alferes entrega a bandeira, o estandarte à devota e esta entrega a imagem da Virgem e do Menino Jesus para logo dirigir-se e entrar no portal da casa toda enfeitada de flores e guirlandas e colocam a bandeira no presépio …
A festa se inicia, se chover é ainda melhor como falou uma festeira pois indica que a festa deu certo…
No encontro se congregam os festeiros, todos vestidos de domingo, alguns observam, outros registram a festa com câmeras, videogravadoras, celular, Ipad, Iphone. A mídia local e fotógrafos amadores estão presentes. Todo nos resulta contemporâneo, é um tipo de relacionamento que temos com o nosso tempo e que nos permite tomar alguma distância, e aproximar-nos de outras realidades.
Centos de anos se passaram na localidade desde o inicio desta festividade trazida pelos colonizadores, mas é notável como nestes dias de descanso e de reflexão rememoramos e buscamos o encontro com os outros, renovamos o amor, as iniciativas de prosperidade, e as alegrias, com harmonia entre o sentir e o pensar que, certamente, se conjugarão em maravilhosos projetos e realizações em 2013!
E, nos perguntamos, qual a motivação e como apropriar-nos deste ritual milenar trazida pelos colonizadores aos nossos povos? Comemorar o nascimento do Menino que em nós existe? Muito tempo se passou desde aquele relato bíblico (Mt.2:1), e ainda nos perguntamos hoje: Quem nasceu em 2013 para cada um de nós? Quem é o Herodes aqui e agora? Quem é aquele povo que esperou pelo nascimento e a libertação? Quem são os mascarados? Que nos trazem as tecnologias digitais? Onde convergem os rituais e o uso das modernas tecnologias que registram e documentam esta festa? Os magos são guiados por uma estrela, outros, por um sinal da operadora de celular ou de banda larga que lhes permita reenviar as fotos noticiando a festa…Continua sendo uma celebração?
Sem dúvida, como disse, numa postastagem anterior, Sylvia Paula, produzir breves documentários com uma perspectiva da nossa realidade, viabiliza uma certa suspensão no tempo para a reflexão; permite o compartilhamento de uma verdade e de uma cultura que pode ser melhor entendida … Nesta coexistência, pensar nosso lugar nesse mundo de tradições e de avanços tecnológicos, nos leva a refletir na partilha em/na com-unidade que se encontra nos vínculos que fazem parte da nossa história… Neste Blog entendemos que a tecnologia, as imagens, os sons levam a impressão das pessoas impregnadas de cultura e visões de mundo. O menino feito homem, como diria Paulo Freire, não perde sua curiosidade e preserva a sua meninice nos vínculos hoje renovados.
Referências
Freire, P. Cartas à Cristina. Prefácio de Adriano S. Nogueira e notas de Ana Maria Araújo Freire. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
Queiroz, A.L.; Zoet, M. Folia de Reis. Imagens, receitas e ladainhas. São Paulo: Lettera; Illumina, 2012.

Respostas de 4
Muito boa sua colocação sobre a festa dos reis no dia 06/01/2013 .
Comecei a pensar em todas as questões colocadas e tentei relembrar como as pessoas se posicionavam a procura de um melhor ângulo ,uma melhor imagem para ser estampada em uma revista, no facebook,ou simplesmente para ser guardada de lembrança.Tenho pouco conhecimento sobre a festa mas recebo em casa os foliões e tento procurar dentro de mim algo que me ligue a eles que me faça ouvir e sentir a mistica do ritual. Impossivel!! não fui criada neste ritual e por mais que eu tente não sou devota do “Santo Reis” o que sei é que respeito a devoção dos outros e fico muito comovida quando vejo (ainda hoje ) o empenho, a alegria e a entrega amorosa das pessoas que fazem a festa. Pra mim não tem tecnologia que consiga ofuscar a fé, a devoção e a simplicidade de Minha querida comadre Dona Maria, não sei responder nenhuma das questões colocadas mas sei que a festa vale se ainda tem o comando de pessoas que acreditam em coisas simples..SE TÁ CHOVENDO É BOM SINAL, SINAL QUE SANTO REIS OUVIU O PEDIDO; Chove lá fora e eu mesmo estando dentro de casa não tenho a simplicidade de agradecer a chuva.
Errata:Mística
Muito bom Margarita ! Adorei !
Parabéns !
bjs
Maris
oi Margarita Victoria, muito bom o comentário da festa de Reis que foi na casa de minha mãe, mas foi legal que muitas pessoas vieram aqui, do Vale do Matutu e o Vale da Pedra. Obrigado a todos que compartilharam esta festa, foi a abertura do Ano de 2013.