Se fizermos a leitura de um clássico, questões que ecoam nos corações e nas ruas da América Latina emergiram, e algumas considerações poderiam ser feitas.
Em Humilhados e ofendidos (1861), Fiódor Dostoiévski retratou a dor daqueles que vivem à margem, a manipulação das elites e a força silenciosa da empatia. Mais de um século depois, a temática dessa obra permanece atual, especialmente para quem vive na América Latina e em regiões de guerra.
A narrativa gira em torno de amores frustrados, conflitos familiares e personagens esquecidos pela sociedade, como a jovem órfã Nelly. Por trás do melodrama, há uma poderosa crítica social: os “humilhados” não são os indignos que cometem atos humilhantes e antiéticos, mas paradoxalmente aqueles que carregam, muitas vezes em silêncio, o peso das estruturas injustas (dos que cometem injustiças). Eles existem em todos os tempos no Brasil e em nossos países vizinhos.
São vozes silenciadas retratadas por Dostoiévski. Ele oferece uma lente para observar os invisíveis de hoje: moradores de periferias, povos indígenas, trabalhadores informais, migrantes e tantas outras pessoas que seguem lutando por dignidade. A obra nos convida a enxergar humanidade onde o sistema insiste em apagá-la.
O poder e a manipulação, encarnados pelo Príncipe Valkovski, que controla o destino dos outros por puro interesse, encontram paralelo nas elites políticas e econômicas que ainda hoje influenciam o rumo de nações inteiras, frequentemente à custa dos mais vulneráveis.
Nesse contexto, a órfã, representa uma infância marcada pelo abandono, uma realidade que assombra comunidades latino-americanas. Ela simboliza o presente e o futuro sendo negligenciados, algo que ainda vemos em sistemas educacionais precários e políticas públicas frágeis.
Surge uma esperança silenciosa, que também é redenção. O narrador, Ivan, é movido, talvez, pela compaixão. Ele representa uma possível saída: a solidariedade, o acolhimento e a escuta ativa. Em tempos de indiferença, Dostoiévski nos lembra da força que há em cuidar uns dos outros.
Em um continente marcado por desigualdades históricas, a obra do autor ainda tem muito a nos ensinar. Humilhados e ofendidos não é apenas um romance, mas um espelho que nos mostra a nós mesmos. E talvez, se olharmos com atenção, possamos encontrar nele um caminho para curar feridas que insistem em sangrar.
Em tempos de polarização e indiferença, o livro nos lembra da urgência da solidariedade e da escuta ativa. Em síntese, Humilhados e ofendidos fala diretamente a uma América Latina que ainda luta por justiça, voz e dignidade. É quase um convite à empatia radical, ao cuidado com os que mais sofrem e a uma crítica ética contra sistemas que desumanizam.
Ele não apenas entretém, mas também provoca reflexões e instiga profundamente. Convidamos você a embarcar nessa jornada literária e a descobrir pessoalmente as lições e emoções que ele oferece. Boa leitura!
Um ótimo final de semana a todos!
Escute a parte 1 de ‘Humilhados e Ofendidos – Fiódor Dostoiévski | Audiobook