O devir educação em rede emancipadora

Imagem realizada com IA


No  livro Educação em Rede: uma visão emancipadora  (2ª edição, agosto de 2025), propomos uma reflexão sobre as potencialidades e as possibilidades das tecnologias para a constituição de redes educativas dialógicas e rizomáticas.

Entre os aspectos discutidos na obra, destaca-se o reconhecimento de diferentes tipologias de redes, especialmente daquelas que se tornam educativas por sua dimensão dialógica e rizomática. Nessa perspectiva, defendemos que educar na contemporaneidade implica promover uma aprendizagem conectada, dinâmica e sem um centro fixo.

O livro também analisa a influência das tecnologias digitais, das mídias e da inteligência artificial na compreensão leitora e nos processos de aprendizagem. Além disso, inspira-se na própria prática da autora, na proposta pedagógica de Paulo Freire e no conceito de rizoma (Deleuze & Guattari), entre outros referenciais, para fundamentar uma educação baseada nos devires, no diálogo, na emancipação e na transformação social.

A obra propõe ainda uma avaliação formativa e processual, em contraposição aos modelos tradicionais, e discute a chamada “pedagogia da virtualidade”. Por fim, apresenta uma perspectiva crítica para a incorporação da mediação, entendida como um modo de conexão sem centro fixo, e do design participativo, considerando também princípios éticos para o uso das redes, de modo a enfrentar os desafios colocados pela Inteligência Artificial Generativa (IAG).

Devir-outro: aprender e experimentar na educação

Um dos conceitos que surge já nos primeiros capítulos é o de devir-outro. Trata-se de um dos conceitos mais fascinantes da obra, conectando-a diretamente à filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mas, afinal, o que significa “devir-outro”?

No contexto de Educação em Rede, esse conceito pode ser compreendido como um movimento sutil e poderoso de transformação. Não se trata de tornar-se literalmente outra pessoa, mas de romper com a repetição do mesmo e abrir-se a novas possibilidades de existência. Nesse sentido, o “devir-outro” pode ser entendido como uma potência libertadora, a capacidade de sair de si, deslocar-se de posições cristalizadas e conectar-se criativamente com o diferente.

Trata-se de uma disposição para deixar-se afetar pelo estranho, pelo novo, pelo que escapa ao repertório habitual de experiências e conhecimentos. É nesse movimento de abertura que emergem novas formas de pensar, sentir e agir.

Outro aspecto fundamental discutido pela autora é a compreensão da aprendizagem como encontro. O verdadeiro aprendizado não ocorre quando apenas repetimos aquilo que já sabemos, mas quando nos colocamos em relação com o outro, seja uma pessoa, uma ideia, uma cultura ou uma informação que circula nas redes. Cada encontro carrega a possibilidade de transformação.

Assim, ao entrar em contato com aquilo que nos desafia e nos desloca, deixamos de ser exatamente quem éramos antes. Em um  “devir-outro”, a experiência vivida produz novas conexões, novos sentidos e novas maneiras de compreender o mundo e a nós mesmos.

Além das bolhas informacionais

No ambiente digital, a potência das redes se revela quando navegamos por espaços abertos e rizomáticos, que nos deslocam para além das nossas bolhas informacionais. Nessas redes, entramos em contato com vozes, saberes e perspectivas que desafiam nossas certezas e ampliam nossos horizontes de compreensão.

Esse movimento desencadeia um processo de subjetivação, no qual percebemos que nossa identidade não é fixa nem definitiva, mas está em permanente construção e negociação com os múltiplos  “outros” que encontramos ao longo do caminho. É justamente nesse processo que o conceito de “devir-outro” ganha força e significado.

Tal perspectiva conecta-se diretamente com uma educação emancipadora. Enquanto modelos tradicionais de educação tendem a formar “sujeitos-mesmo”, frequentemente por meio de processos de padronização e homogeneização, o “devir-outro” valoriza a alteridade, a abertura e a diferença. Não se trata de simplesmente colocar-se no lugar do outro, mas de permitir que a perspectiva do outro afete, desestabilize e transforme o nosso próprio lugar no mundo, rompendo com o isolamento e com as certezas cristalizadas.

Quando uma turma ou uma comunidade de aprendizagem se abre à experiência do “devir-outro”, ela deixa de ser apenas uma soma de indivíduos. Torna-se um coletivo inteligente, no qual ideias e saberes emergem das relações, dos encontros, dos conflitos produtivos e da colaboração genuína. Nesse contexto, aprender significa também transformar-se em relação com os outros.

Algoritmos, dialógos e aprendizagem

A reflexão torna-se ainda mais relevante na atualidade, marcada pela presença crescente dos algoritmos que tendem a direcionar os usuários para conteúdos alinhados às suas crenças prévias, fortalecendo os filtros-bolha  e as câmaras de eco. Diante desse cenário, o “devir-outro” configura-se como um ato político e pedagógico de resistência. Representa a busca pelo contraditório, pelo marginalizado, pelo inesperado e pelo novo; uma verdadeira linha de fuga  das forças que tentam restringir a diversidade de experiências e perspectivas.

Tomemos como exemplo um debate on-line sobre um tema específico. Um estudante, ou mesmo um professor, pode limitar-se a buscar argumentos que apenas confirmem sua opinião, ignorando ou atacando posições divergentes. Essa atitude fechada, marcada pela recusa ao devir, tende a fazer com que ele saia do debate com as mesmas certezas que possuía antes.

Por outro lado, quando estudantes e professores se dispõem a escutar e ler argumentos diferentes com curiosidade e abertura, novas perguntas podem surgir. Ao buscar compreender as razões e os contextos das posições divergentes, tornam-se  questionadores das suas próprias certezas e ampliam sua compreensão do tema. Nesse caso, os argumentos contrários deixam de ser vistos como ameaças e passam a constituir oportunidades de aprendizagem. Ao final, saem do debate enriquecidos pela relação dialógica, pela experiência da alteridade e pela potência transformadora do “devir-outro”.

Síntese conectiva

O “devir-outro” não surge de simples contatos ou interações superficiais, mas da abertura genuína ao encontro com a diferença. Abrir-se ao outro constitui, antes de tudo, uma atitude ética, construída por meio da aprendizagem e alimentada pelo pensamento crítico e criativo.

Nessa perspectiva, as redes dialógicas e rizomáticas revelam uma dimensão ética e estética, pois favorecem encontros com o potencial de produzir deslocamentos, questionamentos e transformações. O conceito “devir-outro” nos convida a compreender que o ato de educar vai muito além da transmissão de conteúdos: educar é habitar zonas de ruptura, fronteiras de sentido, espaços de reinvenção e recomeço.

É nesse movimento que emerge a ousadia de experimentar outras territorialidades, de percorrer novos caminhos e de construir modos inéditos de existir, aprender e relacionar-se. Esse desdobramento, fundamental para a compreensão das redes educativas contemporâneas, merece uma reflexão mais aprofundada, que poderá ser desenvolvida em nossa próxima publicação.

 

“uma educação verdadeiramente emancipadora não pode se fixar nem no território (mesmice, repetição) nem na fronteira nômade (desenraizamento total). Ela propõe uma dança…” (M.V.G, 2026)

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