Educação Multilíngue: experiência do Dr. Mahendra K. Mishra em Odisha, Índia.

JOINT WORKSHOP ON
TRANSFORMATIVE EDUCATION AND GLOBAL DEMOCRATIZATION
(Paulo Freire Institute, NIGD, RC 10, CETAL, NKFFU,
USF, Attac-Uppsala, ABF-Uppsala län) at the IVth WSF
Mumbai, India, 19 January 2004
400 pessoas, entre eles professores/as e lideres comunitários como Aníbal Quijano , Narayan Desai , Azril Bacal, Albert R. Hemsi, Salete Valesan e Margarita Victoria Gómez.

Em tempos de disputa entre os métodos de alfabetização no Brasil e do avanço da Inteligência artificial no mundo, nós aqui estamos nos debatendo para compreender a alfabetização multilíngue de crianças em comunidades tribais da Índia e tentados em consultar o ChatGPT. No entanto, preferimos conversar com o linguista e folclorista Mahendra Kumar Mishra, que acredita que a inteligência artificial (IA) tem potencialidade em várias áreas, porém, a mente humana e a produção do conhecimento para ele, são atos criativos e imaginativos com lógica própria. A IA é útil para organizar os dados e oferecer informação geral programada, mas a essência de um humano é singular e alcança uma profundidade que a IA não consegue.

Humanos também são os direitos internacionais como a educação dos indígenas, por exemplo. Aqui é oportuno compartilhar a experiência de alfabetização multilíngue de indianos nas comunidades tribais e para entender uma experiência da Índia entrevistei (muito antes do chatGPT) o Dr. Mahendra Kumar Mishra que foi coordenador do grupo de educadores em educação tribal em Bubaneshwar, Estado de Odisha.

Lembro que conheci Mishra através de um e-mail no qual ele me fala contando de seu interesse em incorporar Paulo Freire na sua atividade. Isso foi nos inicios do presente milênio, mas em 2004, eu o encontrei pessoalmente, em Bhubaneswar. Ele tinha acabado de publicar o livro Paulo Freire’s reflections on education and society (2003). O Prof. Misha aclara que o livro está escrito em Oriá, língua oficial do estado de Odisha, falada por 40 milhões de pessoas. O nome original do livro é Siksha Samlap. Siksha significa Educação e Samlap significa diálogo. Siksha Samlap significa Diálogo sobre a Educação, no qual as ideias filosóficas de Paulo Freire são narradas em uma linguagem acessível.

Nessa oportunidade viajamos com o professor Albert R. Hemsi para participar e colaborar na realização de um Seminário, tipo círculo de cultura, durante o Fórum Social Mundial em Mumbai. Momento histórico, no qual surgiu a oportunidade de trabalhar a proximidade entre a proposta pedagógica de Paulo Freire e a de Mahatma Gandhi, com a presença de aproximadamente 400 pessoas de vários países, entre eles professores/as e líderes comunitários como Aníbal Quijano(1), Narayan Desai (2), Azril Bacal (3), Albert R. Hemsi , Salete Valesan, entre tantos outros.

Multilingual Education in Tribal Communities of Odisha (2022)

Após 14 anos, no início de 2017 (4), ocorreu nosso terceiro encontro. O Professor Mishra, considerado um dos primeiros educadores e pesquisadores indianos a incorporar o brasileiro Paulo Freire e sua pedagogia na alfabetização tribal, nos convidou para participar de um seminário sobre educação para /e com professores que atuam nesse campo. No geral a língua foi um obstáculo para mim, mas por momentos se falou em inglês. Ele me contou sobre o seu trabalho como folclorista e consultor em educação multilíngue e o indaguei sobre os eixos de encontro entre a educação tribal e a proposta de Paulo Freire, pensando na superação da desigualdade e da desvantagem histórica existente na Índia entre castas e tribos .

A Educação Multilíngue (MLE:Multilingual Education) nas escolas indígenas de Odisha tem a intenção de preservar a língua materna das crianças para logo continuar com a aquisição de um segundo idioma como, por exemplo, o hindi ou o inglês. A pedagogia crítica de alfabetização em Odisha, diferente da corrente tradicional, incorpora a cultura, a linguagem e as narrativas como direitos humanos básicos no contexto global e no local.

O reencontro com o Prof. Misha em Udaipur – Rajastan – em 2017 foi a convite dele para assistir o Seminar of tribal education (4). Ele me lembrou que em 1999 ocorreu a Conferência Global Reflec sediada em Puri, no estado de Odhisa, que apelava para ajudar a libertar pessoas em situação desvantajosa: as mulheres, os Dalits – os intocáveis – os desfavorecidos e as pessoas com algum tipo de deficiência. A opção nesse colóquio foi trabalhar com a educação e a pedagogia em língua tribal, se aproximando assim da proposta de Paulo Freire.

Para isso, tomou de Paulo Freire quatro pontos para trabalhar com os professores alfabetizadores: identificou os problemas sociais, do/no grupo; trouxe a utopia de que o mundo pode ser mudado, apelou para que o grupo como um todo acreditasse que se pode trazer a utopia para o processo de aprendizagem; “que, embora tenha pessoas que não acreditem, o grupo que acreditar contribuirá para mudá-lo”.

O professor Mishra trabalhou para que a pessoa / grupo confiem em um diálogo democrático, nunca impondo suas ideias, mas respeitando as opiniões dos outros na tomada de consciência para, a partir daí, seguir em frente.

Mishra disse que a dialética entre o sim e o não – entre as divergências – a união e a solidariedade no grupo nunca serão afetadas por causa dos argumentos dispares; mas admite a importância do debate, de dialogar e até de discordar na toma de consciência. Desse modo, acredita que com quem se argumenta o vínculo não se perderá, e ambos poderão caminhar juntos para chegar mais longe.

Em contraposição, considera que os professores e estudantes não encontrarão nas propostas tradicionais de alfabetização escolar uma boa educação, pois o sistema de castas enfraquece o lugar social que ocupam e a língua dos indígenas não é aceita no âmbito governamental; ou seja, que o grupo que está no poder não apoia essa perspectiva “pois algumas línguas são do poder e outras a dos subjugados”. Ele entende que as comunidades têm uma ecologia e seu próprio sistema de conhecimento, o que se confirmou durante o ensino da língua pela ótica de Paulo Freire.

Mishra se pergunta: O que Paulo Freire disse acerca da língua? “A Palavra é ‘mundo’; na perspectiva de Paulo Freire as palavras têm a energia de capturar o conjunto de sistemas de conhecimento do Mundo”. Mas a questão é que a palavra deles não tem lugar na sala de aula ou nos livros didáticos.

Ele acredita que língua, religião e casta têm realmente o poder de unificar, e também o poder de dividir. Vai depender da situação, do jogo político. Aqui está a questão para o leitor pensar: que projeto de educação queremos?

É no seu livro Multilingual Education in Tribal Communities of Odisha (2022) no qual Mishra retoma e aprofunda os eixos por nós sistematizados aqui e na vídeo-entrevista.
Especialmente, no capítulo 3, quando ele se refere à implementação curricular da educação multilíngue nas escolas tribais de Odisha e se pergunta: “O que é uma comunidade?”

Para ele a alfabetização de crianças em Odisha é fundamental em escolas com minorias linguísticas. A comunidade é considerada como criadora de cultura e a organização tribal revitalizadora da língua. E tudo isso colabora na elaboração de currículos, livros didáticos e no módulo de formação de professores e, ainda, no desenvolvimento de outros materiais didáticos, monitoramento e avaliação. Por fim, também a UNESCO está presente como orientadora da Educação Multilíngue.

Para o autor, “a comunidade se interessou em compartilhar o processo de ensino-aprendizagem pela inclusão de sua cultura no processo curricular e de novos temas que surgiram”. Os professores orientaram o ensino para obter bons resultados e as crianças recuperaram a voz; o medo e a timidez diminuíram. Passaram a frequentar regularmente a escola e participaram ativamente das atividades em sala de aula. Outras escolas também se interessaram e se inclinaram a adotar os novos métodos. A atmosfera amigável reduziu o número de crianças que abandonam a escola e aumentou o envolvimento de todos no processo de aprendizagem.

Mishra se refere ao conhecimento comunitário e à Pedagogia em sala de aula nas escolas Saora de Odisha e apresenta um estudo de caso baseado em um projeto do Governo de Odisha para educar as crianças Saora em sua língua materna em escolas tradicionais. Nos currículos e livros didáticos se adotam contos e mitos orais Saora, ensinados por professores da comunidade Saora, que visavam fazer a ponte entre a linguagem familiar e escolar e proporcionar um diálogo significativo com as crianças. As histórias são analisadas do ponto de vista construtivista e examinam como as crianças constroem novos significados a partir de um determinado contexto.

Assim, o autor especifica o quadro teórico, o contexto sociocultural, os problemas e desafios das escolas em Saora a partir do construtivismo cognitivo e social e da vida em sociedade. A premissa é que, se o conteúdo for conhecido por uma criança em sua língua materna, ela poderá entender e adquirir melhor o texto em uma segunda língua, Odia ou Inglês. Da mesma forma, se a linguagem for conhecida por uma criança, ela poderá compreender facilmente o conteúdo por ser familiar.

Conforme Mishra a educação multilíngue baseada na língua materna foi administrada pelo governo de Odisha em 544 escolas. Saora é uma língua entre as dez línguas tribais adotadas no programa MLE. Odisha, adotou a linguagem tribal como meio de educação em dez comunidades: Saora, Santali, Munda, Oroam, Koya, Kui, Kuvi, Ho, Kishan, Juang e Bonda. O projeto foi iniciado em 2006 e agora os currículos e livros didáticos estão baseados na língua materna e na formação de professores nessas línguas para Classe-I e para Classe-V, com um plano de transição adequado, alcançando cerca de 30.000 crianças.

No seu livro Multilingual Education in Tribal Communities of Odisha (2022) o autor considera que na etapa do desenvolvimento fonológico avançando até a fonética tribal é onde as crianças desenvolveram proficiência em leitura a partir da língua materna e um modo cultural de aprender matemática, o que se revelou adequado.

Para o leitor, talvez continue a polemica sobre qual é o método de leitura ou alfabetização mais adequado em cada caso? O fônico ou o global baseado no construtivismo?

Ainda, o autor alude a Rupantar, para se referir, com essa palavra, a “Transformação” (em língua Hindi: ‘raízes’ e ‘rotas’). O intuito é a formação transformadora de professores da Área Tribal partindo da premissa de Paulo Freire de que “Professores e alunos devem aprender a ler a realidade para que possam escrever sua história.”

Ao desenvolver esse capitulo, Mishra se vale dos tópicos: preconceitos e disparidades na sociedade; a questão da atitude; a compreensão das crianças; as potencialidades da Língua Tribal; o modo como as crianças aprendem; a questão de gênero na comunidade tribal, e nesses contextos, os resultados da formação.

Mishra, considera que os professores questionaram suas próprias crenças e valores. Eles perceberam que, além de métodos novos para tornar o aprendizado mais agradável, era vital para eles entender as crianças, saber como pensam e veem o mundo. Todas as questões levantadas nas oficinas pedagógicas estavam relacionadas ao envolvimento com as crianças, pais, comunidade e cultura tribal, não ao conteúdo ou atividades transacionais em sala de aula. Em vez de se limitarem ao livro didático, os professores desenvolveram uma visão do mundo ao seu redor.

O autor considera que eles perceberam que a geografia e o ambiente natural da aldeia são a ciência; os homens mais velhos da aldeia são a história; o folclore é a linguagem, e a tradição expressiva e as realidades das suas vidas são a sua aritmética do dia-a-dia. Eles entenderam a importância da aprendizagem informal e como a criatividade de uma criança se configura a partir da aprendizagem informal. Os professores fizeram uma introspecção sobre seu comportamento e atitudes e perceberam o efeito que teriam na psicologia da criança. Portanto, cabe também aos professores criar uma atmosfera de aprendizado e despertar interesse pela educação. A escola, pertencente às crianças, deveria ser um lugar onde elas pudessem aprender por amor e não por medo e compulsão.

O Prof. Dr. Mahendra Kumar Mishra recebeu o Prêmio Internacional de Língua Materna da Unesco em 2023 e seu livro nos introduz a uma experiência que buscou aproximar o “Método de Paulo Freire” à educação tribal no estado de Odhisa.

Fica aqui esta apresentação do livro como um convite para a sua leitura. Acreditamos que pode contribuir para um diálogo que nos permita pensar e refletir acerca da proposta de alfabetização / educação indígena e/ou tribal na Índia, e também em outras comunidades autóctones e originarias, com as contribuições de Paulo Freire.

Profa. Dra. Margarita Victoria Gomez.
http://lattes.cnpq.br/1559256476370569

Fontes:
Gomez, M.V. ; Hemsi, A. R. Interview: Mishra Mahendra K. Tribal education. Orissa, 2004. https://www.youtube.com/watch?v=7WrBRANjVQg
Mishra, Mahendra K. Siksha Samlap. Baramunda, BBSR: Sikshasandhan, 2003.
Mishra, Mahendra K. Multilingual education in Tribal Communities of Odisha. Odiya Bazar, Cuttack-1: Sathi Books, 2022.

Notas:
Workshop on transformative education and global democratization (Paulo Freire Institute, NIGD, RC 10, CETAL, NKFFU, USF, Attac-Uppsala, ABF-Uppsala län) at the IVth WSF Mumbai, India, 19 January 2004.
(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/An%C3%ADbal_Quijano
(2) Narayan Desai. https://wri-irg.org/es/story/2015/narayan-desai-1924-2015
(3) Gómez, M. ; Hemsi, A. Interview – Mahendra K Mishra. https://www.youtube.com/watch?v=7WrBRANjVQg
(4) 5 Em dezembro de 2016 fomos convidados e participamos da First Biennial International Conference IACLSC 2016 Gandhinagar India com o paper Learning Communities: culture circles as a theoretical and methodological option. 2016.Org. Prof. Dr. Sarat Kumar Jena.
Também, coordenei o International Seminar “Open Education in the Global World -principies and contributions of Paulo Freire’s Pedagogy and the Rhizome concept. Indira Gandhi Open University, India, Jan. 2017.

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