Giuliana Torres Tarifa de Oliveira
Neste texto busco refletir sobre os conteúdos da proposta pedagógica exposta no programa da disciplina Seminário Avançado – Pensamento Pedagógico Latino-americano: a experiência da educação popular e da investigação-ação, segundo leitura e conversações em que interagimos é possível correlacionar tal “pedagogia latinoamericana” com nosso modo de ser e nos permite correlações como o nosso “ser” e atuação pedagógica.
Desde a seleção de cursar esta disciplina o meu objetivo foi ampliar meu conhecimento referente a pedagogia, ir além dos conhecimentos de fundamentação teórica calcados na experiência de cogitar (pensar e sentir) o aprendizado a partir de uma antropologia “norte-do-mundo” americana e/ou européia. Mas não imaginava que iria trabalhar no meu processo de identidade e autoconhecimento.
Estou aprendendo a ter um olhar diferenciado; não é mais primordial ter as respostas prontas, e sim saber fazer uma (re)leitura de mundo, onde muitas vezes é importante aprender compartilhadamente a fazer novas perguntas e ir (re)construindo o conhecimento….que resulta, neste caso, de conhecimento de e em circunstancias em que compartilhamos transformações desejadas.
Estou conhecendo um novo mundo latino-americano, não somente teóricos/pensadores e suas perpectivas, mas sim uma história que vai além do Brasil, momentos sociais, econômicos, movimentações culturais e manifestações da época.
No primeiro momento começamos a entender a cultura, colonização, territorialidade e as suas correlações com o pensamento pedagógico, identidade e educação. Analisavamos em diversas formas de manifestação: escrita, poesia, arte, literatura, argila e músicas de protesto.
Entre os teóricos estudados abordarei duas temáticas que se complementam: o processo de identidade e a educação na américa latina.
No texto América Latina: longa viagem para si mesma – de Leopoldo Zea, foi estudado o Simón Bolívar e seu pocisionamento na definição de quem somos: “não somos europeus, não somos índios, mas sim uma espécie intermediária entre aborígenes e os espanhóis”. E é nessa complexidade, mestiçagem, cultura de união, justaposição que surgem os conflitos internos de quem é o latino-americano, ou seja, de quem sou eu?. Assumimos os conflitos como ocasiões de redefinição, naquele sentido de identidade como processos.
O que mais me chamou atenção neste estudo foi reconstruir a minha visão de não existir uma cultura superior ou inferior, certa ou errada, dominada ou dominante, mas sim culturas diferentes e diversificadas. E vieram os questionamentos e reflexões: Como devo ser? Crítica e realista X Políticamente correta. E a resposta correta não é pronta, não existe! Na verdade temos que escutar e acolher a diferença para (re)produzir questionamentos e entender o que cada um traz e tem. Qual a cultura superior e inferior? Sempre tive a visão que as produções americanas e européias fossem as melhores, mas hoje vejo que o que produzimos é tão bom quanto as mesmas e mais adequadas com a nossa realidade. Mais adequadas a realidade que entendemos como NOSSA realidade, aquele estado de coisas perante o qual somos responsáveis, e assim nos fazemos GENTE. Somos vítimas do processo de justaposição? Acredito que não somos vítimas, o “massacre cultural e econômico” houve, mas nós conseguimos nos manifestar e o processo de tentativa de libertação está em anadamento até os dias atuais. E essa luta e manifestações que vimos durante os encontros demostram as riquezas culturais manifestadas como forma de refúgio e elaboração destes momentos.
No capítulo IV: Los hijos de la Malinche, Octavio Paz mostra o machismo e os fantasmas que cercam de quem somos.
Somos hijos de la chingada? Vítimas do capitalismo? O que é ser brasileiro? O que é ser latino americano?. È provavél qe inexista uma resposta única pra tais questionamentos. Ao refleti-las, entretanto, fazemo-nos parte do movimento constituinte de nosso “ser gente”.
E esse processo de identidade é importante mantermos em movimento, pois a partir de saber quem somos ou qual parte da história nos identificamos começaresmos a construir e recontruir e selecionar o que queremos e achamos importante saber.
Acredito que esse processo é sempre inacabado, mas a “movimetação interna e externa” realizada durante o processo é de suma importancia para qualquer modelo pedagógico que acreditamos ser o mais adequado.
A razão é uma marca forte do Angel Rama, este trabalha os conceitos da educação, oralidade e escrita. No livro Ciudad Letrada (1998) expõe a importância do poder hegemônico para manter a ordem. Situa que com a independência a América-latina teve uma revolução social e a letra foi se transformando em símbolo de poder público.
Aqui se reforça a ordem hierárquica, no qual alguns são superiores/ dominador/letrados/civilizados e outros inferiores/dominados/bárbaros.
No capítulo IV – ‘Maestros de Escuela’ vimos o relato de Sarmiento de sua pesquisa na busca de um modelo e métodos de escolas “normais” para ser implantado na Argentina. Sarmiento avaliou as escolas dos locais pesquisados como: Rio de Janeiro, França e Santiago. E o modelo escolhido para implantar foi um método rigoroso e de excessivo controle, e uma grande dominância dos ensinamentos morais e religiosos.
A minha impressão foi que houve um processo de organização curricular em que o ensino era concebido como “civilizar os bárbaros”, tirando-os da família, ambiente barbáro e levando os para a civilização, justapondo sobre a cultura e conteúdos prévios considerados inadequados para essa “nova educação”.
O que foi positivo neste texto foi a intenção de Sarmiento levar uma educação que somente os nobres tinham acesso para a classe popular.
Através do estudo pude identificar algumas semelhanças nas visões de Sarmiento e Angel Rama tinham sobre o homem latino americano: um povo que precisava ser civilizado para estabelecer uma ordem e progresso.
Assim como Sarmiento, Simón Rodriguez também buscou uma nova proposta pedagógica, mas imaginou uma proposta libertadora, criativa que resulta da busca e manifestações que o latino americano continuamente faz num processo de reação, elaboração e reivenção a opressão que recebeu e recebe até hoje.
Um outro ponto que marcou a minha releitura sobre a educação foi de não associar educação diretamente a um “trazer algo” ou “transmitir algo” mas sim associar educação ao movimento de estar sempre investigando, sondando, entendendo, interpretando, desmitificar o que a pessoa traz e juntos construir ou reconstruir um conhecimento, um “treco” como o professor Adriano diz.
Referências
LIMA, José Lezama. Mitos e cansaço clássico. In: A expressão americana. Trad. Irlemar Chiampi. São Paulo: Brasiliense, 1998.
RAMA, Angel. La ciudad letrada. Montevideo: Arca, 1998.
RODRIGUEZ, S. Inventamos o erramos. Caracas: Monte Àvila. Ed. 2004 (Colección Biblioteca Basica de Autores Venezoelanos.
SARMIENTO, d. F. De la educación popular. Manuel Montt, Chile. Ministerio de Instrucción Pública – J. Belin i Compañía, 1849.
ZEA, Leopoldo. América Latina – longa viagem para si mesma. Cadernos da América Latina. Universidade Federal de S. Carlos e UNAM: México, 1982.
Uma resposta
Ingressei no Mestrado em 2014 e tive o prazer de começar a grade com o encontro “Pensamento Pedagógico Latino-americano” com os professores Adriano e Margarita e compartilho com as palavras da Giuliana. Estamos na descoberta de novos horizontes e novos modos de pensar a educação em nosso país por meio da investigação histórica das conquistas. É incrível começar ver a educação com um novo olhar e novos meios de intervenção, entender como funciona a fusão de culturas em seus encontros e começar a enxergar o mundo, a educação e a cultura pelas entrelinhas.