dia 8 de março- Hoje e sempre homenagear as mulheres como parte fundamental da humanidade💚
Na postagem anterior falei das mulheres educadoras e celebrei esse dia porque acredito no nosso trabalho. Na publicação de hoje, vou chamar a atenção para uma mulher em especial.
Nísia Floresta (Dionísia Gonçalves Pinto, RN,1810-França, 1885) foi uma escritora, educadora e poetisa brasileira do Rio Grande do Norte, da mesma região em que Paulo Freire iniciou a experiência de alfabetização em 1963. Conhecer o trabalho de Nísia Floresta é uma opção político-pedagógica, pois este vai além de seu tempo por ter abraçado na educação a causa das meninas, das mulheres e das crianças excluídas da cidadania.
As labirinteiras do Rio Grande do Norte bordam seu labirinto com fios de linho envolvendo tradições, angustias e esperanças que representam seu mundo e sua cosmovisão. De redes e labirintos os nordestinos sabem bastante… No labirinto virtual, não é muito diferente, e as múltiplas conexões nos levam ao pensamento pedagógico latino-americano no qual reencontramos Otávio Paz no seu labirinto da solidão (1950), Angel Rama na sua cidade letrada (1984) e, ainda hoje, a Nísia Floresta, no seu opúsculo (1853) do labirinto.
A pesquisa, a escrita e a intervenção de Nísia no seu tempo foi uma ousadia pois questionou certas ordens religiosas estabelecidas no pais que educavam reduzidos grupos de crianças e amaciavam as filhas do Brasil. Em três de seus livros: Conselhos a minha filha (1842); Opúsculo humanitário (1853) e A Mulher (1859) nos deixa o retrato da sociedade e da educação de uma época.
O pensamento pedagógico latino-americano tão afeito a destacar os fazeres dos homens, educadores e pedagogos depara-se com certas mulheres que fizeram e pensaram a educação na qual nem o feminino nem o masculino são excluídos. Pode-se dizer que a identidade cultural latino-americana como uma construção discursiva e ideológica é machista. Ao questionar certas ordens, Nísia Floresta contraria a mentalidade dessa época com contribuições atuais para o debate:
Ao confiar uma filha a um colégio, o pai deve ter os mesmos receios que depois de entregá-la a um mau esposo. Admiramos a facilidade com que, entre nós, se acredita na moralidade protestada num anúncio mais ou menos pomposo, de quem abre um colégio, sem mais exame se lhe entrega a educação de uma menina! (…) portanto, em favor de todas as mulheres brasileiras que escrevemos, é a sua geral prosperidade o alvo de nossos anelos, quando os elementos dessa prosperidade se acham ainda tão confusamente marulhados no labirinto de inveterados costumes e arriscadas inovações (Floresta, 1853, p. 130).
Na introdução atual do Opúsculo humanitário, Peggy Sharpe-Valladares considera que: “…a autora observa a condição da mulher da camada trabalhadora, verdadeiramente oprimida, devido à falta de acesso à educação, o que resulta em sua desvantagem tanto econômica quanto culturalmente…” Afirma que “ela se opunha à comercialização do ensino por indivíduos incompetentes que com freqüência abriam escolas de bela aparência, mas de pouca substância em seu interior(…) Aos homens se instruía, para desenvolver o intelecto. Às mulheres se educava, para formar o caráter. …. O propósito principal da educação da mulher brasileira era conservar a pureza, em sua conotação sexual, e assegurar um comportamento correto perante a sociedade. (…..)”
Os meninos aprendendo leitura, escrita e operações aritméticas básicas e as meninas instruídas para serem submissas e conseguirem casar, cuidar da casa, ter filhos… Nesse sentido, Nísia Floresta nos deixou alguns princípios que contribuem para pensar o ser humano, a questão de igualdade de gênero, o sujeito politico-pedagógico, critico e criativo na educação.
No Domínio Público – Biblioteca digital desenvolvida em software livre do Ministério da Educação (MEC) podemos baixar e ler o livro Opúsculo humanitário (1853) no qual Nísia afirma que:
…é tempo de voltarmos ao nosso caro Brasil, cujo interesse inspirou-nos este trabalho, e repetir a exclamação com que começamos este opúsculo: Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal! Onde está a doação mais importante dessa civilização, desse liberalismo. Não é na história de nossa terra que iremos estudar a situação de nossas mulheres, porque infelizmente os poucos homens que têm escrito apenas esboços dela não as acharam dignas de ocupar algumas páginas de seus livros…
Em 1882, José Martí (1953) escrevia numa carta para o diretor da Opinión Nacional onde lhe dizia: não é só nos tribunais e nas urnas, em onde querem os pensadores dessa terra ver as mulheres…Chame-las …!
As labirinteiras nos remetem à lenda do labirinto manifesta e à incapacidade de encontrar a saída. Sem duvidas, “Similar à Babel borgeana, o conhecimento é produto de um acaso em que a ficção é o universo e, por meio de múltiplas combinações, se chega a textos particulares, que constroem uma narrativa inacabada. No universo em forma de labirinto, o espelho e a recorrência não permitem ver a saída.” (Gomez, 2004, p.126).)
Em visita de estudo ao Memorial da América Latina com estudantes, na semana de 24 de marco, indagaremos sobre quem era realmente esta educadora pouco conhecida nos cursos de Pedagogia, sobre sua busca pela emancipação feminina e como o positivismo da época a influenciou.
E, no contexto das pensadoras Latino-Americanas, cabe perguntar-nos se Nísia Floresta conheceu ou dialogou com a escritora e ativista feminista argentina Juana Paula Manso (1819-1875), com Manuela Sáenz (1797-1856) ou Juana Azurduy (1870-1862).
Deixo o desafio de saber mais para depois retomarmos nossa conversa …
Abraços, Margarita
Referências
A cidade das letras/Angel Rama. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. [1.ed.1984]
Educación / José Marti. Havana, Cuba: 1953.
Educação em Rede: uma visão emancipadora/MV Gomez. São Paulo: Cortez/IPF, 2004.
Ideografia dinâmica: rumo a uma imaginação artificial/Pierre Levy. São Paulo: Loyola, 1998.
Labirinto da solidão / Octavio Paz. São Paulo: Paz e Terra.1980.[1.ed.1950]
Mulheres guerreiras.
Opúsculo humanitário /Nísia Floresta, 1853.
Projeto Memória.