A educação tem sido cada vez mais desafiada por múltiplas descobertas científicas e novas situações sócio-econômicas. Um dos temas em destaque hoje é a neuroeducação. Embora não seja um assunto propriamente novo, o debate tem sido retomado no atual contexto pedagógico. Essa área começou a ganhar forma entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, quando pesquisadores passaram a defender que descobertas da neurociência poderiam orientar as práticas educativas (Fischer, Bruer, entre outros). Pode-se dizer que a neuroeducação surgiu da aproximação interdisciplinar entre a Neurociência, a Psicologia Cognitiva, a Educação e as Tecnologias Digitais.
Educação neurotecnológica
A expressão educação neurotecnológica (ou neurotecnologia aplicada à educação, 2010-2020) constitui um desdobramento mais recente da neuroeducação. Esse campo é impulsionado pela integração de interfaces cérebro-computador (BCI), encefalografia (EEG) de baixo custo, inteligência artificial adaptativa e sistemas de personalização da aprendizagem baseados em biomarcadores cognitivos, entre outros recursos (Schewe & Barbara; Kadosh; Maldonado; Yuste).
No Brasil, César Timo-Iaria e Miguel Nicolelis são referências, entre outros pesquisadores/as, no debate sobre as neurociências. Na America Latina, Chile foi o primeiro pais a incorporar uma emenda sobre os neurodireitos na sua Constituição (2021). Acredita-se que as contribuições da neurociência para além da pedagogia convencional precisam ser consideradas/estudadas na experiência educativa atual.
O uso sistemático de interfaces cérebro–computador, ambientes imersivos, neuroestimulação, neurofeedback e neurovigilância pode reinventar os próprios conceitos de aprendizagem humana.
Ética em Neurotecnologia
Nessa direção, novembro de 2025, a UNESCO publicou e colocou em vigor a Recomendação sobre Ética em Neurotecnologia (Ethics of Neurotechnology, UNESCO) que constitui a primeira norma global destinada a regular tecnologias que acessam ou interagem com a atividade neural ou com dados neuronais. O documento aborda temas como privacidade mental, consentimento, limites para usos comerciais invasivos e salvaguardas para os direitos humanos.
A partir desse marco internacional, a UNESCO busca promover a inovação responsável no uso da neurotecnologia. No entanto, será importante observar quais instituições educativas e quais Big Techs aderirão às diretrizes, assim como ocorreu com compromissos internacionais relacionados à IA.
Como essa recomendação da Unesco é muito recente, será necessário acompanhar as declarações públicas dessas empresas sobre sua intenção de cumprir os princípios estabelecidos, especialmente no âmbito da educação. Dessa forma, a integração dessas tecnologias impõe desafios significativos, exigindo cautela, sobretudo quando se pensa em sua adocão em contextos voltados à emancipação e à formação cidadã.
Algumas referências
Bruer, John T. Education and the brain: a bridge too far. Educational Researcher nº 26, pp. 4-16.
Dehaene, Stanislas. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.
Damasio, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Fischer, Kurt W. Mind, brain, and education: building a scientific groundwork for learning and teaching. Mind, Brain, and Education, 2009, 3, 3–16.
Fischer, Kurt W. A theory of cognitive development: the control and construction of hierarchies of skills. Psychological Review, 1980, 87 (6):477-531.
Kadosh, Roy Cohen. The Stimulated Brain. Cognitive enhancement using non-invasive brain stimulation. United Kingdom: Elsevier Science, 2014.
Maldonado, Pedro. El humano futuro: cerebro, evolución, inteligencia artificial y neurotecnología. Santiago de Chile: Editorial Antártica, 2024. (Maldonado e Yuste, ver discussões no documento da Unesco, 2025).
Nicolelis, Miguel. O verdadeiro criador de tudo: como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2020.
Oakley, Barbara; Schewe, Olav. Aprender depressa e bem. Ferramentas para acelerar a aprendizagem em qualquer área, Portugal: Contraponto, 2025.
Timo-Iaria, César, ver na Wikipedia ou em : Magalhães, Luiz Edmundo. Humanistas e cientistas do Brasil. Ciências da Vida. São Paulo: Edusp, 2015.
Yuste, Rafaél. Neuroderechos. Un viaje hacia la protección de lo que nos hace humanos. Espana: Logística Libros, 2025.
Unesco. Ethics of neurotechnology, UNESCO, 2025. Link. https://www.unesco.org/en/ethics-neurotech?hub=83294.